É saudável correr várias maratonas no mesmo ano?

Setembro 19,2018
blog de noticias científicas - nutrição esportiva
Normalmente no mês de abril ocorre um “boom” de maratonas e neste ano não foi diferente. Para se ter uma ideia, no dia 8 de abril tivemos diversas maratonas, como a de São Paulo, Paris, Roma, Rotterdam, Santiago, etc. Oito dias depois ocorreu a famosa maratona de Boston (corrida da World Marathon Majors, circuito que envolve as maiores e mais renomadas maratonas do mundo). E no dia 22 de abril, ocorreu a maratona de Londres, outra corrida do grupo das Majors.
Além do mês de abril, há durante o ano diversas provas que atraem milhares de pessoas, como as outras Majors por exemplo (Tóquio, Berlin Chicago e Nova Iorque), as “queridinhas” dos brasileiros como a maratona de Buenos Aires e a maratona da Disney, além das nacionais, com destaque para a maratona do Rio de Janeiro [1].
Com tantas opções assim, não é de se espantar que muitos corredores (também podendo ser chamados de loucos, rs) não conseguem escolher somente uma maratona e acabam por correr diversas maratonas no mesmo ano. Mas há algum mal em correr tantas maratonas no mesmo ano?
Durante uma periodização de treinamento para um amador completar sua maratona alvo, ele provavelmente treinará de 4x à 6x por semana (com volume de treino de 45k – 90km por semana), com sessões de treino que podem chegar a 37km de distância percorrida.
Esse alto volume de treino semanal já pode aumentar os marcadores de dano muscular. Um estudo com maratonistas mostrou que o treinamento para uma maratona é capaz de aumentar os níveis de Creatina quinase (CK) e Lactato desidrogenase (LDH), importantes marcadores de dano muscular, quando comparados com estes mesmos marcadores antes da periodização.
Junto da periodização está a própria maratona alvo, outro fator que vai aumentar ainda mais os níveis de dano muscular. Um artigo de revisão de 2013 mostrou que além do corredor começar com os níveis de CK maiores que o normal (160 IU/L), ele pode chegar até a 43,800 IU/L logo após a prova, dependendo da intensidade da prova, voltando a sua normalidade em média após o 3º dia do término da prova.
Assim, se uma periodização de treinamento para uma maratona dura cerca de 4 meses, o corredor ficará com os biomarcadores de dano muscular maiores que o normal durante todo este período, além de atingir níveis muito maiores após a prova (indicando maior dano muscular), aumentando de maneira significativa as chances de lesões musculares.
E se o corredor realizar mais de um período de periodização durante o ano, visando correr mais que uma maratona? Ou ao invés disso, realizarmos somente uma periodização, mas correndo maratonas em sequência? Nas duas situações os níveis de CK e LDH ficariam elevados em comparação com o corredor em repouso por um longo período de tempo ou vai atingir picos de elevação de CK e LDH em sequência. Em ambos os casos, as chances de lesão muscular ficariam ainda mais aumentas, além de aumentar as chances do corredor desenvolver a síndrome do overtraining, acarretando em lesões crônicas, diminuição da performance, desequilíbrio do sistema hormonal, etc.
Pensando de uma maneira saudável, completar uma maratona e ter um período de descanso logo após é a melhor maneira de obter desempenhos satisfatórios com menores riscos, especialmente lesões. Obviamente há casos de corredores que fazem maratonas em sequência com bons resultados (exceções), mas isso é assunto para uma próxima matéria.
Referências bibliográficas
[1] Maffetone PB, et al. The Boston Marathon versus the World Marathon Majors. PLoS One. 2017 Sep 1;12(9):e0184024.
[2] Gordon D, et al. Physiological and training characteristics of recreational marathon runners. Open Access J Sports Med. 2017 Nov 24;8: 231-241.
[3] Krebs PS. The effects of cycling and marathon training on eighteen blood parameters. J Sports Med Phys Fitness. 1992 Mar;32(1):64-9.
[4] Bird SR, Linden M, Hawley JA. Acute changes to biomarkers as a consequence of prolonged strenuous running. Ann Clin Biochem. 2014 Mar;51(Pt 2):137-50.
[5] Schneider CM, et al. Effects of physical activity on creatine phosphokinase and the isoenzyme creatine kinase-MB. Ann Emerg Med. 1995 Apr;25(4):520-4.
[6] Petibois C, et al. Biochemical aspects of overtraining in endurance sports: a review. Sports Med. 2002;32(13):867-78.
[7] Urhausen A, Gabriel H, Kindermann W. Blood hormones as markers of training stress and overtraining. Sports Med. 1995 Oct;20(4):251-76.
https://www.exerciencia.com.br/e-saudavel-correr-varias-maratonas-no-mesmo-ano/
Autor: Jeferson Santana

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